Caríssimos leitores,
este texto é um grito. Decorre de muitos anos a ver tantas mãos estendidas e tantas mãos escondidas. Tantas vezes surpreendentemente, aquelas mãos que se encaixam na outra mão. Escuridão.
Imaginemos uma pessoa muito idosa sentada no fundo de um poço.
Não caiu de repente. Foi descendo devagar. Tentou agarrar a mão. Escapou-lhe (faz de conta). Primeiro, perdeu alguém que amava. Depois, deixou de conseguir fazer algumas das coisas que sempre fizera. Faltava-lhe uma mão. A casa tornou-se maior e mais silenciosa. Os espaços de sempre, enormes; e o silêncio veio de nenhures. Os dias começaram a parecer-se uns com os outros. Haverá alguma mão? Algumas pessoas deixaram de telefonar. Outras partiram. Outros esfumaram-se. O corpo passou a exigir mais cuidado, mais tempo e mais paciência. Mas sem mãos é difícil.
Até que, um dia, essa pessoa olhou para cima e percebeu que a luz parecia muito distante.
Foi então que um pequeno passarinho pousou na borda do poço.
– Estás aí? – perguntou.
A pessoa idosa não respondeu. Já se tinha habituado ao silêncio. Como qualquer um de nós.
O passarinho inclinou a cabeça e voltou a perguntar:
– Consegues ouvir-me?
– Ouço – respondeu finalmente a pessoa. Mas não vale a pena ficares aí. Eu já não consigo sair. (A segurança traiçoeira do vazio).
O passarinho não tentou negar a profundidade do poço. Não disse que tudo iria passar depressa. Não garantiu que a dor desapareceria. Limitou-se a permanecer. Presença.
Depois, disse:
– Talvez hoje não tenhas de sair. Talvez hoje baste saberes que alguém te vê. Eu vejo-te. (A mão).
A pessoa idosa levantou os olhos.
Havia muito tempo que ninguém lhe dizia algo assim. (Esticar a mão).
– Mas tu és apenas um passarinho – murmurou. De alma cheia.
– É verdade – respondeu ele. Não consigo puxar-te para cima. Mas posso trazer-te uma canção. Posso lembrar-te que o céu continua aqui, mesmo quando só consegues ver um pequeno círculo azul. (Dar a mão).
A pessoa ficou em silêncio.
– O céu não desapareceu – continuou o passarinho. O poço é que te impede de o veres por inteiro.
Talvez seja isto que São João da Cruz nos ensina quando fala da noite: a escuridão não é necessariamente o fim do caminho. Por vezes, é o lugar onde os nossos olhos aprendem lentamente a reconhecer uma luz mais profunda. A mão, aquela mão que nos agarra e segura. O Pai.
São João da Cruz não escreveu sobre a escuridão a partir de um lugar confortável. Escreveu como quem atravessou a noite e, dentro dela, descobriu que Deus não tinha partido.
Por isso, a sua voz chega até nós como um grito suave de esperança. Mão na mão.
É um grito porque quer chegar a todos nós. Ser ouvido.
É suave porque não obriga, não invade e não promete caminhos sem dor. Aproxima-se devagar, como o passarinho que pousa junto ao poço e permanece ali.
À pessoa idosa que se sente esquecida, o passarinho disse:
– Não confundas o silêncio com abandono.
Nem sempre a ausência de palavras significa ausência de amor. Há uma presença que não depende da tua força, da tua saúde, da tua utilidade ou daquilo que ainda consegues fazer.
Caríssimos leitores,
vivemos numa sociedade que valoriza muito a autonomia, a rapidez e a produtividade. Por isso, envelhecer pode trazer a sensação dolorosa de já não se ser necessário. Pior: ser um peso. Quando as mãos tremem, os passos abrandam e a memória falha, a pessoa pode começar a acreditar que perdeu o seu lugar no mundo.
Mas a dignidade humana não diminui com a idade. Nem em circunstância alguma.
Uma pessoa não vale menos porque precisa de ajuda. Não perde importância porque já não consegue cuidar dos outros como antes. Não deixa de ter uma missão porque passa mais tempo sentada, deitada ou em silêncio.
Há vidas que, na velhice, se tornam semelhantes a uma pequena chama. Talvez já não iluminem uma sala inteira, mas continuam a aquecer quem se aproxima. Sempre.
O passarinho, ainda pousado na borda do poço, perguntou:
– Queres que volte amanhã?
– Para quê? – respondeu a pessoa.
– Continuarei aqui.
– Eu sei.
– Talvez amanhã possamos olhar juntos para o céu.
(Presença).
É disto que tantas pessoas idosas precisam: não apenas de alguém que lhes digam para terem esperança, mas de quem espere com elas. (Desafio.)
A esperança não é uma ordem para sorrir quando se tem vontade de chorar. Não é fingir que a solidão não dói ou que todas as perdas têm uma explicação imediata. Queremos ser a mão na mão, aquele alguém que se senta com a pessoa idosa junto à escuridão sem fugir dela?
Por vezes, somos chamados a ser o passarinho. Tantas vezes.
Não temos de resolver tudo. Talvez não consigamos retirar alguém do seu poço. Mas podemos telefonar. Podemos visitar. Podemos escutar uma história já contada muitas vezes. Tantas vezes. Podemos segurar uma mão. Ou as duas. Podemos chamar a pessoa pelo nome. Sempre pelo nome. Podemos lembrar-lhe que continua a pertencer à nossa família, à nossa comunidade e à nossa vida. Irmãos em Cristo. Sempre.
Outras vezes, somos nós que estamos no fundo. Tantas vezes?
Nesses momentos, São João da Cruz convida-nos a acreditar que existe um caminho, mesmo quando não o vejamos. A noite pode esconder a paisagem, mas não apaga o caminho. Pode ocultar as estrelas, mas elas continuam lá. Pode tornar a caminhada mais lenta, mas não impede Deus de caminhar connosco.
Talvez a pessoa idosa não consiga sair do poço sozinha. Talvez precise de muitas mãos, de cuidados, de acompanhamento médico, de apoio espiritual e de uma comunidade verdadeiramente atenta. A esperança não substitui esses cuidados; exige-os. Quem acredita na dignidade de cada pessoa não pode deixá-la abandonada na escuridão.
Na manhã seguinte, o passarinho voltou.
Trazia no bico um pequeno ramo.
– O que é isso? – perguntou a pessoa.
– Um sinal de que, lá em cima, a primavera ainda existe.
A pessoa sorriu pela primeira vez em muitos dias. Anos.
Não tinha saído do poço. A dor não desaparecera. O corpo continuava frágil e a ausência dos que tinham partido continuava a doer.
Mas alguma coisa tinha mudado.
Já não estava completamente só. Ser um com o outro.
E talvez a esperança comece precisamente assim: não com uma grande luz que entra de repente, mas com um pequeno passarinho que regressa, com uma voz que chama pelo nosso nome, com uma presença que nos assegura que o céu continua sobre nós.
São João da Cruz é esse grito suave que atravessa a noite e nos diz: continua. Mesmo na escuridão, não estás abandonado. Mesmo quando não sentes a luz, caminhas em direção a ela. Mesmo no fundo do poço, o céu não deixou de existir.


